A temperatura ambiente marca 40°C, mas o meu corpo está abaixo de zero. Mesmo suado ele permanece frio e não sente as dores da alma. Então chamam pra almoçar, sento à mesa e faço algum comentário, nenhuma palavra. Os garfos batendo nos pratos, e o latido dos cães reinam sobre o silêncio. Quando o almoço acaba, volto pro meu realejo, e canto baixinho uns versos de um amor, escritos na parede do meu quarto. Ouço chamar meu nome, duas ou três vezes - na primeira, finjo não ouvir, com a desculpas de que os fones no meu ouvido abafam o som vindo de fora, na segunda, eu respondo. Suas palavras atingem sempre na medida certa os meus ideais. Quando as palavras acabam, agora sem mais nenhum ruído na casa vazia, se escuta apenas os rastejos dos cães sobre os potes, de fome.
Sento-me numa cadeira de madeira improvisada, defronte a um ventilador para abafar o calor, mas ainda sinto um vento frio, então visto um casaco ao avesso como uma proteção, ou para o contradizer..e assim adormeço, esquecendo e sendo esquecida.
Ainda me lembro, era domingo.

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