terça-feira, 19 de maio de 2009

A morte..


Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do Casseta & Planeta deram seus depoimentos, parecia que a qualquer instante iria estourar uma piada, estava tudo sério demais, faltava a esculhambação, a zombaria, a desestruturação da cena, mas nada acontecia ali de risível, era só dor e a perplexidade, que é mesmo o que causa em todos os que ficam.


A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte por si só, é uma piada pronta. A morte é ridículo. Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário. Tem planos para semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório.Colocar gasolina no carro e no meio da tarde... MORRE.


Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu? O livro que ficou pela metade? O telefonema que você prometeu dar a tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta idéia: MORRER. A troco de que?


Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviram para nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego. Mas não desistiu.Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de duvidas quanto à profissão escolhida.Mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente.De uma hora pra outro, tudo isso termina, numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis. Qual é?


Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas. A apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.


Logo você que dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manha.Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério?


Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem vindo. Já não há muito mesmo a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas.


Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas.Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça. Por isso viva tudo que há para viver. Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da vida.Perdoe sempre!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Para tua mulher quando casares:


Como de freqüência nos dias de outono, nós costumávamos caminhar incansavelmente pelos vales da montanha. Todo o dia, sem faltar um, você segurava a minha mão, como se jamais segurara a de mais ninguém. Indagávamos questões do universo, e juntos experimentávamos sonhos, Deuses e demônios viviam do nosso lado.

- Olha! Ta vendo aquela casa no alto da montanha?

- Sim, estou.

- É ali que eu quero viver.

- Mas ali? Ela é tão simples..

- Ela é simples em sua solidão, talvez seja isso que a faça bonita. Há dias que eu a observo, e me imagino nela. Se você olhar de longe você percebe que de dia as cores neutras da janela contrastam com o azul brigadeiro do céu. Mas se as nuvens resolvem invadir, ela parece se esconder em sua timidez. A timidez é uma condição alheia ao coração, uma dimensão que desemboca na solidão. Talvez isso faça com que ela brilhe de modo diferente pra mim. Nós poderíamos viver ali tranquilamente até nos cansarmos, mas acho impossível..

- É, impossível...

- Impossível de nos cansar, não precisaríamos de muito luxo, me contentaria a passar o resto dos meus longos dias, calmo e no silêncio, assim, a fitar seus olhos, como agora.Mas agora ele os calou, passando de um lado pro outro, como se jamais vira algo parecido, suas pálpebras então gemeram, em gesto de dor. Sentiu-se então como se uma faca perfurasse sua garganta, rasgando e impedindo-o da fala. Então abaixou a cabeça e sentou, como se seus ossos não fossem o suficiente para sustentar o resto de seu corpo. (...)


Ensaiando uma segunda parte.