quarta-feira, 13 de maio de 2009

Para tua mulher quando casares:


Como de freqüência nos dias de outono, nós costumávamos caminhar incansavelmente pelos vales da montanha. Todo o dia, sem faltar um, você segurava a minha mão, como se jamais segurara a de mais ninguém. Indagávamos questões do universo, e juntos experimentávamos sonhos, Deuses e demônios viviam do nosso lado.

- Olha! Ta vendo aquela casa no alto da montanha?

- Sim, estou.

- É ali que eu quero viver.

- Mas ali? Ela é tão simples..

- Ela é simples em sua solidão, talvez seja isso que a faça bonita. Há dias que eu a observo, e me imagino nela. Se você olhar de longe você percebe que de dia as cores neutras da janela contrastam com o azul brigadeiro do céu. Mas se as nuvens resolvem invadir, ela parece se esconder em sua timidez. A timidez é uma condição alheia ao coração, uma dimensão que desemboca na solidão. Talvez isso faça com que ela brilhe de modo diferente pra mim. Nós poderíamos viver ali tranquilamente até nos cansarmos, mas acho impossível..

- É, impossível...

- Impossível de nos cansar, não precisaríamos de muito luxo, me contentaria a passar o resto dos meus longos dias, calmo e no silêncio, assim, a fitar seus olhos, como agora.Mas agora ele os calou, passando de um lado pro outro, como se jamais vira algo parecido, suas pálpebras então gemeram, em gesto de dor. Sentiu-se então como se uma faca perfurasse sua garganta, rasgando e impedindo-o da fala. Então abaixou a cabeça e sentou, como se seus ossos não fossem o suficiente para sustentar o resto de seu corpo. (...)


Ensaiando uma segunda parte.

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